Jussara* só descobriu que seu filho Bruno*, de 22 anos, era viciado em crack quando ele chegou em casa acompanhado por um policial, depois de ser flagrado com duas pedras da droga no Centro do Cabo de Santo Agostinho. Era novembro de 2010. Descortinada aos olhos incrédulos da mãe, a notícia passou a fazer parte de uma rotina de tormento. A funcionária pública recobrou a esperança quando o rapaz conseguiu uma vaga na refinaria, no Conest - consórcio formado pelas empresas Odebrecht e OAS. Vestir a farda das empresas de Suape é o sonho de muitos jovens do município de tradição açucareira.
"Achei que ia ser bom para meu filho, mas foi pior. Na obra ele conheceu vários homens de outros Estados, que usam e vendem crack lá dentro. Passou a fumar com muita frequência, faltava ao trabalho e acabou sendo demitido. Os R$ 700 que recebeu de indenização foram todos para as mãos dos traficantes", conta. Para Jussara, a imagem próspera de Suape foi desconstruída. "Não queria mais meu filho trabalhando ali. Preferia que arrumasse um emprego na prefeitura, mas ele conseguiu uma vaga em outra obra da Odebrecht", lamenta. Chorando, diz que o crack devastou a vida da família. Bruno passou a pedir dinheiro e a vender móveis e eletrodomésticos da casa para comprar pedras.
Paraíso do emprego, o território de Suape também é mercado certo para o tráfico de drogas. Dados da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) mostram que as apreensões nos municípios do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca cresceram 293% em 2010, na comparação com 2009. O aumento é quase dez vezes superior à média do Estado, que ficou em 36%. O consumo está disseminado nas obras e nos alojamentos mantidos pelas empreiteiras. Mais barato que a cocaína, o crack vive uma escalada sem precedentes. Na região, as apreensões aumentaram sete vezes (veja arte).
Professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco e especialista em estudos sobre crime organizado, Adriano Oliveira entende que o aumento das apreensões significa um trabalho melhor da polícia. "A elevação do consumo está relacionado ao mercado, à circulação de dinheiro numa região. E ali isso já existia por causa do turismo no Litoral Sul", observa.
Na avaliação do secretário de Defesa Social, Wilson Damázio, a concentração de uma população masculina com poder aquisitivo maior também contribuiu para o consumo de drogas disparar na vizinhança de Suape. "A prova de que está girando dinheiro na região é que a pedra é vendida por R$ 10, enquanto em outros locais é encontrada por R$ 5. Mas a polícia se preparou melhor para o combate ao crime organizado e estamos monitorando seus líderes", defende.
O consumo de bebida alcoólica também se propaga na área de Suape. Botecos e espetinhos se multiplicam, inclusive dentro do porto. Só em frente à obra da PetroquímicaSuape é possível ver vários ambulantes. "Vendia tudo o que o peão gosta: espetinho, cerveja e Pitú, mas fui chamado pela diretoria de Suape e impedido de comercializar bebida, por conta das regras de segurança", conta um paulista que vendia churros em Ipojuca e decidiu mudar o foco do negócio e se transferir para dentro do porto. "Já fizemos várias reuniões com a diretoria de Suape, pedindo a retirada desses ambulantes, mas nada aconteceu. Imagina se funcionários adoecem por causa dessas comidas? Vão dizer que foi o nosso refeitório", reclama o gerente administrativo-financeiro da Odebrecht, Bernardo Pedral.
No Cabo de Santo Agostinho, o secretário de Defesa Social, Luís Lima Filho, diz que a prefeitura poderá limitar o horário de funcionamento do comércio informal. "Estamos falando de centenas de homens que largam do trabalho e ficam confinados, sem ter o que fazer. O resultado é sair para beber. Toda esquina tem um espetinho vendendo cerveja aqui no município", diz. "As repúblicas de trabalhadores também se transformam em ponto de bebedeira, brigas, som alto e visita de mulheres", completa.
"A situação é de insegurança aqui em Gaibu, depois que a praia virou dormitório de Suape. Tivemos um banco Bradesco estourado pelos bandidos, os assaltos são frequentes e a matança aumentou", queixa-se o presidente da Associação de Moradores de Gaibu, Crélio José da Silva. Pelas estatísticas da SDS, os números da violência diminuíram no Cabo e em Ipojuca. Entre 2009 e 2010, os homicídios caíram 7,36% e os latrocínios 10,3%. A SDS não divulga os números por áreas, que poderiam identificar aumento em locais considerados críticos nas duas cidades, como Gaibu.
* Todos os nomes são fictícios
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