Thaís quer ser mãe. Marcelo quer ir à praia. Aline quer fazer pós-graduação. Luciano quer praticar esportes. Givaldo quer ver o filho crescer. O que une essas pessoas não são seus sonhos, mas o motivo pelo qual elas não conseguem realizá-los. Todas perdem de três a seis horas, todos os dias, cumprindo a simples tarefa de ir para o trabalho e voltar para casa. Elas fazem parte do grupo de cerca de 74 mil empregados que conquistaram seu lugar ao sol em um dos 121 empreendimentos do Complexo Industrial e Portuário de Suape, entre o Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca. Mas o boom de empregos - eram 6,6 mil em dezembro de 2006 - não veio sozinho. O aumento de postos de trabalho em Suape significou mais veículos acessando o complexo por dia: de 6,7 mil, em 2009, para 10 mil, em 2011. Sobrou para quem não estava preparado para tanto crescimento: o sistema de mobilidade urbana. Hoje, é quase impossível chegar e sair de Suape em horários de pico sem enfrentar congestionamentos e transportes coletivos abarrotados. A fatura do desenvolvimento não planejado é paga por Marcelos, Alines, Lucianos e outros milhares de trabalhadores que vivem uma rotina estressante capaz de comprometer a saúde, as relações sociais e até o desempenho profissional.
Por três semanas, a equipe do Diario acompanhou as histórias de seis trabalhadores que residem nas áreas Norte e Sul da Região Metropolitana do Recife e precisam se deslocar diariamente até Suape. Descobriu que todos vivem o dilema entre a remuneração e a função desejadas e a qualidade de vida prejudicada. Nos horários mais críticos, refez os trajetos de ida e volta entre o Recife e Suape e identificou os gargalos que não deixam o trânsito fluir, como as precárias manutenção e fiscalização nas estradas. Apesar de ser o principal motor da economia do estado, Suape não dispõe de uma base de dados única que reúna as informações pregressas e atuais sobre empregos, fluxo de veículos e projetos de mobilidade. Coube à reportagem compilar essas informações para entender por que o sistema se tornou tão frágil e saber o que está sendo feito para melhorá-lo. O resultado desse trabalho pode ser conferido nesta reportagem especial que o Diario publica de hoje até terça-feira.
Cadê a qualidade de vida?
No trabalho, não há o que reclamar. A função e o salário são satisfatórios e o ambiente laboral é saudável. Mesmo assim, Thaís Oliveira não está satisfeita. Aos 34 anos e recém-casada, a assistente de negócios quer ter seu primeiro filho. Mas, enquanto precisar sair de casa quando o dia ainda está clareando e só voltar quando já escureceu, o plano familiar terá que ser adiado. Sem tempo nem para cuidar de si mesma, Thaís não quer ser uma mãe relapsa. “Não posso ter filho nessa condição”. Thaís sai de casa, em Olinda, às 5h para chegar às 7h30 no Complexo Industrial e Portuário de Suape, em Ipojuca, Litoral Sul do estado. A volta é ainda mais penosa. Larga às 17h e só consegue vencer o trajeto entre 20h30 e 21h. São três ônibus para ir e voltar. “Quando chego do trabalho, só consigo tomar banho, comer e dormir para começar tudo de novo no dia seguinte”, relata.
A maioria das pessoas que mora no Recife ou em cidades vizinhas e trabalha em Suape cumpre uma rotina semelhante a de Thaís. São horas despendidas no trânsito que poderiam ser aproveitadas em outras atividades. Vítimas da precária infraestrutura de mobilidade urbana, elas acabam resumindo suas vidas ao trabalho, negligenciando as relações sociais e a própria saúde. “Se considerarmos o conceito dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que a define como o completo bem estar físico, mental e social, esse ritmo de vida é totalmente inadequado. Serve de alerta para que a sociedade resolva com urgência o problema da mobilidade”, pontua o clínico geral e endocrinologista Carlos Augusto Costa.
Tempo escasso
A profissional de marketing Aline Alves da Silva, 23, trabalha há sete meses em Suape e já sente o estresse provocado pelo trânsito. Ela mora em Jaboatão Velho (Jaboatão dos Guararapes), e gasta cerca de cinco horas, todos os dias, para ir e voltar do trabalho de ônibus. “São muitas horas que fico parada, sem fazer nada. Isso é estressante. Fico cansada e acabo perdendo fácil a paciência, principalmente com a família. Quero fazer pós-graduação, mas não consigo arrumar tempo para estudar”, desabafa.
Quem trocou o ritmo frenético de São Paulo e Rio de Janeiro em busca de tranquilidade no Recife teve as expectativas frustradas pelo trânsito. É o caso do químico Marcelo Rosa de Oliveira, 41. Há dois anos, ele aceitou uma proposta de emprego em Suape e mudou-se para a capital pernambucana com a esposa e as duas filhas. Elegeu Boa Viagem, na Zona Sul, como seu novo endereço para realizar um desejo antigo: morar perto da praia. Apesar de estar a dois quarteirões do seu sonho de consumo, ele não lembra a última vez que pisou no calçadão. Desde que os congestionamentos se tornaram frequentes no trajeto entre sua casa e o trabalho, a qualidade de vida não é mais a mesma. Convivendo com o cansaço e com dores de cabeça diárias, só consegue ver filme no sofá com a família e ir ao shopping nos fins de semana. “Em São Paulo, morava no interior e só demorava na estrada quando ia para a capital, mas aí estamos falando de um trajeto de mais de 100 quilômetros. Já no Rio, vivia em Niterói e gastava duas horas para voltar da capital. Mas nada se compara ao trânsito que pego entre Recife e Suape. Hoje, a empresa optou por pagar pedágio na Ponte do Paiva para tentar driblar os congestionamentos, mas até essa alternativa está ficando estrangulada”, avalia.
Uma solução adotada pela maioria das empresas de Suape na tentativa de minimizar o desgate dos trabalhadores com o deslocamento é oferecer transporte fretado aos funcionários. O complicado é montar uma equação para atender a todos por igual. Para não perder os treinos de kung fu, o soldador Luciano Varela Guimarães, 25, abriu mão de usar o ônibus da empresa no percurso de volta para casa, pois prefere fazer o trajeto no trem a diesel. Da estação do Cabo até o terminal em Cajueiro Seco, perto da casa dele, são 34 minutos. “Acabo ganhando tempo porque não pego o trânsito da BR-101. O ideal seria que o trem chegasse até Suape, para me livrar do congestionamento na PE-60”, pondera.
Perdas e ganhos
Quando o problema da mobilidade não pode ser contornado ou suavizado, a saída pode ser analisar até que ponto o emprego está valendo a pena. O ferreiro armador Givaldo Pereira da Silva, 27, fez as contas e concluiu que seria melhor trocar o trabalho em Suape por outro de remuneração menor, porém mais perto de sua residência. Ele conta que passava a semana no alojamento da empresa porque, se voltasse para casa, em Abreu e Lima, não sobraria tempo nem para dormir. Agora, ele aposta que, sem os percalços do trânsito, sua vida vai melhorar. “A maior vantagem será mesmo participar mais da vida do meu filho, vou poder vê-lo crescer”, comemora.
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